Você tem equilíbrio entre vida pessoal e trabalho? Ou você seria capaz de pedir mais dias de férias em vez de aumento de salário?

Você tem equilíbrio entre vida pessoal e trabalho? Ou você seria capaz de pedir mais dias de férias em vez de aumento de salário?

Quem lê os meus posts já sabe que desacelerar é uma bandeira minha. E eu estou sempre tentando encontrar formas de tornar a minha vida mais tranquila, sem deixar de fazer o que tem que ser feito e de conciliar as demandas individuais, familiares e de carreira.

É engraçado como, mesmo quando isso não era tão claro pra mim, já buscava de forma inconsciente. Buscava organizações mais flexíveis, em que eu pudesse trabalhar bastante mas com flexibilidade de horários, que acomodassem minhas necessidades pessoais, e que tivessem um perfil mais tranquilo. Mesmo nos momentos em que eu estava mais motivada com meu trabalho, percebo que naturalmente sempre tentei frear um pouco meu crescimento profissional porque queria fazer outras coisas. Se eu assumir aquele projeto terei que trabalhar muito mais, a ponto de ter que abrir mão da minha vida pessoal? Então deixa pra lá.

Mas eu queria crescer na minha carreira também. Me dedicava, buscava conhecimento para fazer coisas novas, pedia feedbacks, assumia tarefas, trabalhava bem mais do que o horário. Só que mesmo assim chegou um ponto em que isso não foi mais exatamente uma escolha minha. Conforme fui crescendo, a empresa começou a me dar cada vez mais trabalho e deixar pra depois deixou de ser uma opção. Se eu recusasse poderia perder o emprego e não podia deixar de trabalhar. Dentro de mim brigava comigo mesma, pensava que ligar pra isso é coisa para gente fraca, preguiçosa, derrotada, e eu queria crescer como profissional. Então me forcei a aceitar que trabalhar muito era normal, que é assim mesmo, e assumi que isso era algo que eu precisava mudar em mim mesma.

Só que aí chegou um ponto que comecei a ficar doente toda hora. Depois as doenças que inicialmente eram só uma gripe começaram a aumentar de gravidade, evoluindo para pneumonia e labirintite. Comecei a ter alergia a tudo. Cheguei ao ponto de ter várias doenças ao mesmo tempo. Até que me vi obrigada a aceitar que eu precisava desacelerar. Isso foi uma derrota pra mim, tentava fingir que não estava doente, tinha vergonha, me senti muito mal. Pior do que isso, me sentia a única pessoa no mundo que tinha problemas sérios com esse equilíbrio. Juro.

Até que um dia no meio dessa crise me veio um estalo: Qual o problema de desacelerar? De onde eu tirei que desacelerar é coisa pra gente preguiçosa? Quem me passou essa crença? Qual a importância dessas pessoas na minha vida? A vida é assim mesmo, mesmo? Se não rejeitarmos essas crenças sobre trabalho e não mudarmos a forma de trabalhar por nós mesmos, continuaremos reféns do sistema. Se não der pra desacelerar naquela empresa, que seja em outra empresa, em outro formato de trabalho, em outra carreira.

Uma coisa que aplico na minha vida e acredito muito é que eu sou uma pessoa só, dentro e fora do trabalho. É claro que se adaptar faz parte do nosso aprendizado como seres humanos, mas quando a adaptação a um determinado ambiente é demais, questiono se talvez aquele não seja o ambiente pra mim. Percebi que quando comecei a buscar um trabalho mais alinhado a quem eu sou, esse equilíbrio trabalho e vida pessoal começou a ser mais natural. Eu trabalho bastante, mas consigo ter mais flexibilidade para adequar os compromissos pessoais e profissionais na agenda.

Mas o que nos segura nesse sistema que tanto nos incomoda, mas do qual é tão difícil sair? É feio admitir isso, mas para a maioria de nós é a necessidade de se sair melhor que a “concorrência”. Ou seja, ganhar e fazer mais do que todo mundo que a gente conhece, inclusive colegas, amigos, familiares. O que é sucesso pra você? Depois de muita resistência tive que admitir que pra mim sucesso tem que vir tanto em termos profissionais como pessoais. Foi difícil porque sempre acreditei que pensar dessa forma talvez restrinja minhas possibilidades financeiras ao longo da vida. Mas o fato é que se eu estiver ganhando muito dinheiro mas não conseguir me dedicar a mais nada além do trabalho, sei que vou ficar muito infeliz. Assim como se tudo que integra a minha vida pessoal estiver bem, mas eu estiver sem grana pra nada, também vou ficar muito triste.

É importante refletir sobre quanto custa a vida que você quer vs quanto custa a vida que você precisa, em termos financeiros e emocionais. Necessidades são limitadas, mas desejos são ilimitados. O problema dos desejos é que a gente cria um desejo na nossa cabeça, aí para satisfazer esse desejo muitas vezes criamos outros que nos ajudem a conseguir aquele. Por exemplo, se eu quero começar a correr meia maratona, acho que preciso fazer academia para fortalecer o joelho. Então já não é um desejo, o de correr, são dois, o de correr e o de fazer academia. E mais, quando conseguimos realizar nosso desejo, o próprio bem que antes era um desejo cria uma série de outros desejos na gente. Então quando eu finalmente consigo correr a meia maratona, faço um tempo que considero ruim e quero fazer um grupo de corrida para melhorar meu tempo. Enfim, se nos deixarmos levar por eles o tempo todo nunca estaremos satisfeitos, e nunca conseguiremos equilibrar nossas vidas.

Acredito que os desejos são infinitos porque a gente fica insistindo em tentar ser perfeitos em todas as áreas da vida, mas a verdade é que estamos sempre equilibrando pratos. Será que não vale me questionar em que espaço da minha vida vou fazer menos? Do que vou aceitar abrir mão para ganhar mais em outra área?

No passado, tentando resolver minhas questões de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, fiz um curso de gerenciamento do tempo. Eu sou uma pessoa bastante metódica e inicialmente tentei aplicar tudo que aprendi no curso. Mas me deparei com uma série de dificuldades práticas, porque o problema de conselhos sobre gerenciamento do tempo é que eles são puramente racionais, e a vida não é assim tão racional. E acabei deixando pra lá, como a maioria das pessoas faz. Não adianta querer priorizar só o cliente que te dá mais lucro, mas deixar de lado o outro cliente que não paga tanto, mas que é constante, garante sua saúde financeira, e ainda te indica para os seus contatos. Acho mais produtivo pensar, quem eu conheço que atingiu esse equilíbrio e eu admiro? O que a pessoa fez para conseguir isso? Eu seria capaz de replicar suas ações?

A verdade é que a gente nunca sabe para onde a vida vai nos levar. Quando comecei a praticar krav maga, nos primeiros meses sempre pensava “vou fazer só mais esse mês”, afinal “não serve pra nada”, “não ganho nada com isso”, “vai ser igual as tantas vezes que tentei fazer academia”. E hoje já faço há quase 5 anos, já fiz 3 exames de faixa, sou monitora, fiz muitos amigos, passei por experiências incríveis, por causa do krav maga comecei a fazer corrida, me conheço e me desafio a cada dia, e ele se tornou uma parte muito importante da minha vida. Também já deixei de aproveitar oportunidades profissionais nas quais poderia ter tido a ajuda de antigos amigos meus, porque no passado escolhi deixá-los de lado em benefício de atividades mais produtivas – e que muitas vezes não deram em nada. Contei essas duas histórias para dizer que lazer pode sim virar ganha-pão. Ou ainda, você pode prosperar no lazer de outras formas, que não signifique apenas ganho financeiro.

Mas que lazer vou procurar? Pra começar, se você não se interessa por nada, provavelmente você tem dificuldade de equilibrar vida pessoal e trabalho e nem percebe. Tente lembrar e listar tudo que você gostava de fazer no passado que não tinha relação com trabalho, por exemplo suas brincadeiras de criança. Em seguida anote ao lado de cada uma quais sensações essas atividades te despertavam, o que te energizava nelas. E a partir dessas sensações tente imaginar atividades que você poderia gostar de fazer e que te despertariam essas mesmas sensações.

Ou o seu problema é ao contrário, é a tendência a querer lazer em excesso? Percebo isso em pessoas que saem do emprego para fazer uma transição de carreira. A atitude de sair do emprego por si só parece um enorme comprometimento com a transição, mas com certa frequência depois disso a pessoa começa a ficar em casa procrastinando, e não sai do lugar ou sai muito vagarosamente. Até que o dinheiro ou o apoio acabam e ela acaba tendo que voltar ao que fazia antes. E isso não depende de a pessoa saber ou não o que fazer, porque já vi gente que tinha um objetivo claro e um plano bem construído mas não executava, e gente que não sabia o que fazer mas buscava ajuda de várias formas até encontrar opções e seguir em frente. Então por que a pessoa faz isso? Uma das possibilidades é que a pessoa passa a priorizar a vida pessoal de tal forma que acaba não “tendo tempo” para trabalhar. Sem querer ela vê o trabalho como algo que “atrapalha” a sua vida. Para não cair nessa armadilha, é importante estar sempre se observando e buscando um equilíbrio, dos dois lados, do lazer e do trabalho.

Espero ter conseguido trazer alguma reflexão, alguma ação que faça sentido pra você. Mas se nada disso fez sentido, vale a pena se questionar se você quer mesmo buscar esse equilíbrio. Atingir esse equilíbrio é de fato importante pra você? Ou você se sente pressionado a buscá-lo, por pressão social ou familiar, ou por acreditar que é o certo? Se te incomoda, não espere ficar doente. Se não te incomoda você não tem um problema, parta para o próximo.

 

Esse post foi escrito a partir da aula Como equilibrar trabalho e vida pessoal, da The School of Life, e da minha experiência com 7 doenças seguidas de uma transição de carreira nos últimos 2 anos.

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