Eu sou geração Y sim, e daí?

Eu sou geração Y sim, e daí?

Nós temos a má fama de que não queremos trabalhar, de que trocamos de emprego toda hora, de que queremos tudo fácil, de que somos frescos e não queremos fazer qualquer coisa. Sei como é, eu também nasci entre 1980 e 2000.

E como muitos de nós, principalmente os que nasceram logo no começo dessa geração, tentei me encaixar no mesmo padrão de trabalho dos nossos pais. Procurei um emprego convencional em uma grande corporação, consegui, fiquei 7 anos na mesma empresa e vinha crescendo na carreira. Sempre achando que quando eu conseguisse crescer na carreira, aí sim meu amigo, tudo vai ser diferente e eu vou ser feliz. O problema começou quando, quanto mais eu crescia, mais trabalhava, mais eu percebia coisas das quais não gostava nas organizações, mais eu tinha que ficar quieta e dar graças a Deus por ter um bom emprego, por mais injustas que as coisas fossem.

Ah, mas largar tudo é fácil pra quem tem muito dinheiro. Eu não tenho muito dinheiro. Nasci em uma família bastante humilde e não fiquei rica com esse trabalho. O desconforto está aí pra todo mundo, não tem a ver com dinheiro. Tem a ver com valores.

Não me considero uma pessoa que não gosta de trabalhar. Trabalhava cerca de 12 horas por dia e acordava 5h30 da manhã para conseguir ir para a academia e fazer alguma coisa por mim além de dormir. Hoje trabalho em meu próprio negócio, e quem tem ou teve empresa sabe que trabalhar por conta é batalhar muito a cada dia para sobreviver.

Considero um movimento importante as pessoas começarem a se preocupar com qualidade de vida. Ninguém está pedindo pra trabalhar menos horas do que é pago pra fazer. Mas não é justo sermos pagos por 8 horas por dia e trabalhamos 12. Se continuar assim nossos filhos serão pagos por 8 horas e vão trabalhar 15. Que bom que alguém está incomodado com isso. Não vejo outra forma de se começar uma humanização nas organizações, se não for através do desconforto das próprias pessoas que trabalham nelas.

Mas nem todo mundo consegue viver do que ama. Se todo mundo fizer isso, não vai sobrar ninguém para trabalhar nas empresas. Concordo com isso, mas a questão para cada um é se essa é a vida que você quer viver. Quero fazer algo que tenha um significado maior pra mim além de ganhar dinheiro. Quero chegar no fim da vida e me orgulhar de quem eu fui e do que eu fiz com ela. Estudei muito pra isso, pra poder escolher entre profissões, formatos de trabalho, e entre trabalhos também.

É, mas vocês só querem fazer o que gostam e a vida não é só fazer o que se gosta. É? Ninguém está dizendo que fazer o que se ama é ter prazer o tempo todo, claro que todo trabalho tem partes chatas e que quase nenhum de nós vai viver como um nômade digital, trabalhando com o computador no colo na beira de uma praia paradisíaca em outro país. Digo isso porque trabalho como coach especializada em mudança de carreira, então converso muito com pessoas que querem mudar de área ou de formato de trabalho (alguém que atua no mundo corporativo e quer empreender por exemplo). Nunca alguém chegou até mim dizendo que queria isso. Já vi pessoas que queriam ter um negócio online, trabalhar em casa, mas geralmente porque queriam se dedicar mais aos seus filhos. Qualquer motivo para mim é um motivo justo, mas digamos que esse atende até a quem não é da geração Y.

E queremos tudo rápído, de preferência pra ontem. Queremos resolver tudo agora, ter tudo agora, falar com todo mundo agora. Concordo e sei que isso em casos mais extremos nos leva a muita ansiedade, não conseguimos mais esperar. Isso prejudica nossa capacidade de concentração e até nossas relações. Mas vendo por um lado positivo, tentamos o tempo todo encontrar formas de fazer as coisas mais rápido, ficamos ainda que online muito mais próximos dos nossos amigos, não temos paciência para sermos enrolados. De fato precisamos equilibrar isso, mas as grandes mudanças vêm assim mesmo, começam em um extremo, vão até o outro extremo, para ao final encontrar o meio termo ideal.

Boa parte das pessoas que conheço que fizeram escolhas por trabalhos com mais significado são empreendedores ou profissionais liberais. E normalmente isso significa trabalhar mais e não menos. Significa fazer conta o tempo todo para não ficar sem dinheiro. Procurar trabalho quase que diariamente. Seria muito mais fácil procurar um emprego e ficar na mesma empresa o resto da vida. Quer dizer, estamos dificultando a própria vida por essa causa.

Querer ficar mais tempo com seus filhos, ter uma vida mais equilibrada, construir negócios do zero mesmo correndo riscos, construir uma vida com mais significado, não se sujeitar a regimes que nos exploram, não me parecem atitudes de quem não tem juízo. Pelo contrário.

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