Sobre me sentir pressionada a fazer e acumular coisas

Sobre me sentir pressionada a fazer e acumular coisas

Quem me conhece sabe que eu não sou uma pessoa de ficar polemizando na internet e tendo a ignorar quando as pessoas fazem isso, mas dessa vez preciso adiantar para quem assim como eu não gosta de gente polemizando na internet, que esse é uma espécie de post-desabafo. rs Digo isso porque ele fala sobre algo que impactou muito na minha história e impacta minha vida até hoje. Então quem quiser parar por aqui fica super à vontade, sem mágoas, continuamos amigos.

Sempre me senti muito pressionada a fazer e acumular coisas. Quando todo mundo da minha idade e condição econômica já estava deixando os estudos, começando a trabalhar e tentando ganhar algum dinheiro, eu decidi fazer faculdade e continuar passando (MUITO!) aperto por mais 5 anos. E fui muito criticada pela minha escolha, porque afinal eu não tinha condições de ficar de boa fazendo faculdade. Confesso que se eu tivesse ideia que seria tão difícil não teria tentado, mas tentei e consegui. Quando me formei e meu primeiro emprego pagava mal ouvi coisas do tipo: de que adiantou tanto tempo só estudando e agora ganhar isso? Diziam que eu tinha que fazer um concurso público, porque inteligente como eu era ia passar rapidinho e estaria com a vida feita. Mas eu estava aprendendo muito naquele trabalho e sentia que aquilo me ajudaria a conseguir algo melhor no futuro. Cerca de dois anos após me formar, passei em um programa de trainee que me trouxe para São Paulo e me pagava (finalmente!) bem. Então comecei a ser criticada porque não tinha carro: Por que você não compra um carro, um apartamento, se ganhava o suficiente pra isso? Porque a vida em São Paulo é muito mais cara. Então por que ficar em São Paulo se precisa de tanto dinheiro assim pra viver aí? Porque eu gosto de morar aqui. Acredito que eu tenha decepcionado muita gente com essa resposta tão simples.

Mas as críticas não se resumiam a acumular ou não acumular coisas, também havia críticas sobre o que eu fazia ou deixava de fazer. Todas as suas amigas estão casando, por que você ainda não casou? Porque eu não achei um cara legal ainda. Mas você não vai casar? Adoraria se acontecesse mas isso depende de uma terceira pessoa, então não tenho como definir como meta de vida algo que depende de outro. Quando casei começaram as cobranças para ter filhos. Você já tem quase 35, quando vai ter filhos? Vocês já estão casados há tanto tempo, não vão ter filhos? O fato é que eu ainda não tenho filhos e não sei quando vou ter. O que sei é que como todas as escolhas que fiz na vida, vai ser na hora certa pra mim.

Uma vez em um processo seletivo ouvi de uma gestora de RH que eu tenho uma habilidade muito valorizada em processos seletivos no início da carreira: a capacidade de adiar recompensas. Isso porque a vida toda eu fiz trocas entre um benefício menor agora, mas certo, por um benefício futuro maior, mas incerto. Claro que até ali eu nunca tinha pensado nas minhas escolhas de forma tão estruturada. Mas foi uma grande amiga quem definiu melhor do que eu jamais conseguiria as minhas escolhas: quem quer o melhor demora mais pra conseguir, e você quer o melhor. Ela nem sabe disso (pelo menos até hoje!) mas essa frase dela marcou a minha vida. Acalmou o meu coração de uma forma incrível tirando qualquer sombra de dúvida que surgia quando as pessoas me faziam cobranças.

 

“Quem quer o melhor demora mais pra conseguir”

 

Naquele momento eu não sabia, mas essa frase foi se revelando muito verdadeira nos anos seguintes. Eu quase sempre demorei mais do que todo mundo pra conseguir as coisas, às vezes a ponto de dar tempo de cair e levantar algumas vezes no percurso, e de tudo parecer mesmo que eu não ia conseguir. Mas quando consigo é o melhor, porque é o que eu queria. Foi assim com a faculdade, o MBA, a cidade, o casamento, as viagens, o trabalho.

 

 

Mas o que é o melhor pra mim?

O que vou falar agora pode até parecer estranho para muitas pessoas que me acompanham a uma certa distância, porque sempre busquei ir acumulando conquistas. Mas a verdade é que eu defino sucesso sob outros padrões. Quando finalmente eu pude comprar um bom carro à vista, em vez de ficar feliz pensei, chocada, “meu Deus, estou dando essa grana toda nesse monte de lata!” E decidi usar a grana para me ajudar a mudar de área. Pode dar tudo errado nessa mudança, mas eu nunca vou esquecer que fiz isso.

 

Sucesso pra mim é viver o máximo de experiências que eu puder.

 

Quando as pessoas dizem hoje em dia que ter sucesso é viver experiências, pra muitos, talvez a maioria, isso remete a largar tudo e sair viajando pelo mundo sem data pra voltar. Esse é o tipo de experiência que o mercado vende, a propaganda usa a nossa vontade de viver experiências para nos vender coisas, vendendo as sensações que aquele produto ou serviço vai nos trazer. Não é disso que estou falando. Se a gente conseguir não se deixar levar veremos que continuam sendo coisas, e que podemos ter as mesmas sensações de outras formas. Muito mais genuínas, significativas, e até mesmo mais baratas. Mas do que estou falando, então?

Não tenho vontade nenhuma de ter um carro. Confesso que quando as pessoas me falam sobre comprar um carro eu fico cansada só de pensar no que isso acarreta: IPVA, seguro, revisão, pedágio, estacionamento, conserto, alguém pode bater nele, podem roubar… E isso vale para quase todas as coisas que me cobram de ter. Mas nunca vou esquecer do dia em que me formei na faculdade contra todas as possibilidades, o dia que sentei na poltrona do avião pra vir morar em SP e me dei conta de que “caramba, eu não vou voltar”, o dia que comprei nossa passagem para passar a lua-de-mel em Israel, que mudei para o Rio e que voltei para SP depois, que terminei minha primeira meia maratona, que recebi a faixa verde (que talvez seja a mais esperada antes da preta) no krav maga.

 

Da mesma forma que as conquistas palpáveis que o mundo tanto nos cobra, as experiências que considero sucessos têm muito esforço por trás e uma conquista no final.

 

 

Toda conquista pode dar errado em dois momentos: você pode não conseguir o que quer, ou conseguir e não manter. Quando falo em não manter pode ser porque aquilo não era bem o que você esperava e você não quer mais manter, por exemplo um casamento cujo marido não era o que você esperava no dia-a-dia, ou porque não deu certo mesmo, como um emprego que você não conseguiu performar. Mas quando você vê o sucesso como as experiências que vive, consegue se desprender um pouco do que não deu certo, já que o que vale é a própria experiência. Por exemplo, quando fui morar no Rio de Janeiro isso era uma coisa que eu queria muito, pois sempre gostei de ir pra lá passear. Alimentei essa vontade desde adolescente até ir aos 32 anos. Eu juro, não sou uma pessoa volúvel. Não mesmo. Mas com um mês e meio – tenho até vergonha de falar isso, mas foi um mês e meio – eu queria vir embora. Não consegui me adaptar a violência da cidade, ao serviço ruim quando precisava de algo, e por aí vai. Pra mim ter ido foi uma conquista mesmo assim, porque foi algo que eu busquei intencionalmente e consegui, mas principalmente porque vivi muitas coisas diferentes no curto período que passei lá, das quais nunca vou esquecer.

E o mais importante: nada nesse mundo vai me tirar isso. Podem me levar carro, casa, até minha família pode desmoronar (infelizmente!), mas ninguém nunca vai me levar o que eu aprendi e vivi. Qualquer outra conquista que não seja isso pode ser passageira. Sucesso é ter conquistado essas experiências. Olha que assumir isso não é fácil pra mim. Principalmente se a gente considerar que cresci em uma família pobre e que um dos meus valores mais fortes é segurança financeira. E é uma conquista por isso mesmo. Porque não é fácil.

Preciso deixar claro que não estou de forma nenhuma julgando as pessoas que fazem escolhas diferentes das minhas. Não tenho o direito de ficar julgando as escolhas dos outros, assim como os outros não têm direito de julgar as minhas. Mas fico triste quando vejo pessoas se forçando a fazer escolhas que no fundo não são as que elas queriam fazer, presas a padrões, deixando a vida levar, pressionadas por outras pessoas ou até por si mesmas.

Um pesquisador e coach americano, chamado Richard Leider, entrevistou pessoas com mais de 65 anos de idade. Ele descobriu que, se elas pudessem viver novamente, uma das coisas que fariam de forma diferente seria sair do piloto automático e da correria do dia a dia para refletir mais sobre o que elas fazem nas suas vidas.

 

Do que você vai se arrepender quando tiver 65 anos?

 

A única coisa que eu sei é que não vou me arrepender de não ter feito o que queria fazer.

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